19/07/2010 - 09h42
Ovelhas em pele de touro
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Por Adriano Silva
A idade tem me ensinado um negócio chamado tolerância. (E eu já fui um bocado intolerante.) A falta de paciência, e muitas vezes de respeito, com quem é diferente da gente, significa sobretudo uma ideia de que estamos sempre certos e de que os outros estão sempre errados, de que nós somos a correção, o parâmetro óbvio, e de que o outros se equivocam permanentemente, de que os outros é que são os tortos e canhestros.
Muitas vezes praticar a intolerância é também um exercÃcio de reclamar indistintamente do mundo à volta para não ter que engendrar a espinhosa tarefa de analisar e criticar a si mesmo.
Ao mesmo tempo, a idade - faço 40 no próximo janeiro - tem me ensinado a identificar algumas coisas mais rapidamente. Mais cedo na vida, você muitas vezes vê uma ovelha mas duvida do próprio olhar. É que a ovelha se apresenta como touro.
Todo mundo afirma que aquela ovelha é de fato um touro. Está escrito no cartão de visitas da ovelha que ela é indubitavelmente um touro. Então você passa a acreditar que ela talvez seja mesmo um touro e não uma ovelha. Hoje eu sou menos tolerante com essas espumas e maquiagens. E, por consequência, acredito mais no que enxergo. Touros são touros. E ovelhas são ovelhas. Por mais que haja ruÃdo e confusão a respeito.
Há executivos absolutamente notáveis nessa arte da camuflagem. Tem um sujeito, um de vários, que encontro com enorme frequência sendo anunciado na mÃdia especializada como novo diretor aqui, sócio de outra empresa ali, recém contratado por alguém para determinada empreitada, integrando o time que vai lançar um novo negócio acolá.
E é um sujeito, um entre tantos, que não tem rigorosamente obra alguma construÃda na carreira. Simplesmente não tem resultados a mostrar. Não inventou, não vendeu, não desenvolveu, não inovou, não criou - não fez nada. Não estou sendo cruel nem preconceituoso.
Nada tenho contra ele pessoalmente - guardo até uma certa simpatia por sua coisa underdog, por sua malandragem. É que conheço sua história de mais de quase 20 anos de irrelevância no mercado, premiada com convites, promoções e anúncios grandiloquentes de suas contratações na mÃdia especializada.
(Um outro jeito de pontuar sua carreira seria pelas demissões, pelos ciclos incompletos nos lugares por que passa, pela rodagem bastante alta e infelizmente inócua que tem produzido em sua trajetória profissional. Mas não vemos esse tipo de matéria, de análise, de verdade crua em nossa mÃdia, quanto menos na especializada.)
Eis o ponto: algum valor esse tipo de cara agrega, alguma coisa de bom ele faz. Ninguém sobrevive tanto tempo no mercado sem algum tipo de entrega. Talvez não seja uma entrega em termos de resultados concretos, de números batidos, de produtos criados, de marcas bem geridas, de serviços bem prestados, de carteiras com clientes satisfeitos, de faturamento crescente. Mas algum outro tipo de entrega deve haver. Tem que haver.
Talvez no campo da polÃtica corporativa, da psicologia organizacional que amarra pessoas em compromissos intangÃveis e muitas vezes impublicáveis, na inteligência emocional que permite ocupar espaços, aproveitar oportunidades e construir laços baseados muitas vezes naquelas coisas que não são ditas de viva voz nem à luz do dia.
Sei lá. Aà tem. Tem que ter. Só não podemos imaginar que ovelhas são touros. Não são.
Fonte: Manual do Executivo Ingênuo