02/09/2011 - 09h06
Treinar pra quê?
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Por Antonio Lazarini
Num passado não muito distante, eram frequentes as crÃticas a um determinado jogador de futebol que não gostava de treinar. "Treinar para quê?" dizia ele. A imprensa dava grande destaque ao fato dele não comparecer aos treinos, ou, quando aparecia, limitava-se a poucos exercÃcios fÃsicos e apenas participava da famosa "pelada". Como pode existir um jogador de futebol que não treina? Isto não é normal, não se cansavam de repetir os cronistas esportivos.
Um fato adicional que deve ser contado nesta estória é que, no dia do jogo para valer, o tal jogador, que não treinava, era o melhor em campo.
Era quem, na maioria das vezes, dava a vitória ao seu time. Isto é, o que lhe cabia, que era fazer gols, ele fazia com grande maestria. Por isto, tornou-se um dos maiores goleadores do futebol brasileiro, e por que não dizer, do futebol mundial.
Na verdade os cronistas esportivos estavam fazendo nada mais do que cobrar um padrão de comportamento estereotipado, isto é, todo jogador tem que treinar todo dia e com bastante intensidade.
Esta prática de controlar o comportamento das pessoas, reduzindo a importância do resultado, extrapola o mundo esportivo e invade a nossa vida.
É o pai que critica o filho que não estuda, mas tira boas notas. É o chefe que critica o empregado que se veste de maneira diferente, ou tem um comportamento incomum, ou não cumpre à risca o horário, mas que traz o seu trabalho sempre em dia e apresenta excelentes resultados.
O que de fato acontece é que não estamos olhando para o resultado, mas para o "como" que as coisas estão sendo feitas.
Este padrão de cobrarmos um comportamento igual para todos nada mais é do que inverter a importância das coisas. Treinar é mais importante do que ganhar o jogo? Claro que não, mas tem muita gente por aà só preocupada com o treino, não com o jogo. O "como" é mais importante do que o "o quê".
O resultado do jogo é que deve ser cobrado. Há jogadores (a maioria) que precisam treinar, e muito. Já para outros, basta apenas uma "pelada" para descontrair, ir para o jogo e conquistar um bom resultado.
As empresas estão cheias de cronistas esportivos travestidos de chefes, mais preocupados com o treino do que com o resultado. Como toda "boa" empresa, o que interessa é que todos façam as coisas do mesmo jeito, isto é, os comportamentos devem ser padronizados. E, para isto, gastam recursos e tempo aos montes.
Esta postura desfocada leva os talentos ao tédio do treino forçado que só agrada aos técnicos medÃocres e jogadores medianos.
Num mundo onde as empresas devem ser muito competitivas, tratar todos da mesma maneira é um contrassenso imperdoável. Tratar os diferentes de forma igual ou os iguais de forma diferente é a mais comum das imbecilidades praticadas no mundo corporativo.
Claro que não estamos defendendo o uso de qualquer meio para se atingir bons resultados. Trata-se apenas de permitir que cada um desenvolva suas potencialidades da forma que lhe for mais conveniente e contributiva para a consecução dos melhores resultados.
E isto não tem nada de anormal, amoral ou indigno; pelo contrário, é o melhor uso dos recursos que uma empresa pode fazer, ou seja, usar o que cada um tem de melhor para dar.
Então, se o que vale é bola na rede no jogo de taça, treinar para quê?
Fonte: Blog Gestão de Gente, em Exame