28/06/2011 - 08h44
Como trabalhar com gente que tem falta de ar ao pronunciar esse verbo?
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Por Adriano Silva
O mercado de trabalho é uma fonte inesgotável de boas pautas para um blogueiro. E de ótimos personagens para um escritor. Qualquer mercado, suponho eu - basta haver gente que a riqueza literária está garantida. Mas falo com convicção do meu mercado, que conheço bem. Onde a fauna é exuberante.
Esses dias cruzei com mais uma dessas meninas. Se elas se conhecessem, talvez se organizassem ao redor de uma confraria. (Ou então vai ver que se conhecem e se odeiam. Sei lá.) Trata-se de um tipo de gente altamente enganadora. Deliberadamente desonesta. Que age assim porque considera que esse é o jeito certo de agir no mundo profissional.
São do mal - embora nem sempre saibam disso com todas as letras. Eis o ponto: elas operam no Lado Sombrio da Força não por perversão. Mas por preguiça. Por lassidão. Por burrice.
É assim: diante dos chefes, patrões e clientes, assumem uma postura mimimamente aceitável. (Nem sempre conseguem. Ali mesmo, com frequência, já dão pistas de como operam. Muitos superiores preferem não enxergar. Pior para eles).
Mas quando quando elas viram as costas, para tratar com subordinados, fornecedores e parceiros, aà sim, mostram sua verdadeira cara. É gente que faz de tudo para não trabalhar. Então não assumem responsabilidades. Fogem de prazos. Fazem de tudo para não ter compromissos na agenda. Tem alergia a follow ups. Negligenciam tarefas e deadlines o mais que podem. Seu objetivo na vida e na carreira é esse: trabalhar o menos possÃvel.
Não carregar nada sobre os ombros, em momento algum. Seu foco não é jamais obter algum resultado. Sua missão é se esconder, se esquivar, não estar nunca na posição de serem cobradas. Jamais, em hipótese alguma, puxam algum problema para a sua conta e tentam resolvê-lo. Nem como favor à empresa nem como regozijo pessoal. Vivem para rebater pedidos, repassar demandas, espanar o que vier pela frente ou de cima para os lados e para baixo.
É claro que com essa postura vão sobrevivendo. Se escudando nos outros, se escondendo no banheiro, se enfiando embaixo da mesa e nas frestas da parede, como seres invertebrados.
É claro também que não constroem nada de concreto e de real agindo assim. Se desperdiçam. Vivem de se ausentar, de se poupar, de não entregar e de não se entregar. Então não angariam nada de valor à s suas carreiras. No curto prazo, vão disfarçando isso. Como uma máscara a mais. No longo prazo, estarão mortas. De inanição do próprio talento. De frigidez profissional. De suicÃdio do potencial que tiveram um dia. Ou seja: de tanto se pouparem, aà mesmo é sumirão do mapa, pela polÃtica de esvaziamento total que se autoimpuseram.
O duro é que no longo prazo estaremos todos mortos, não? Inclusive os bons e justos, os esforçados e os solidários. Mas essa é outra história.
Falo em meninas porque conheço umas três ou quatro que chegam a ser caricaturais nessas caracterÃsticas. Mas é claro que deve haver meninos da mesma estirpe. Que talvez disfarcem um pouco melhor. Ou então vai ver que esse descompromisso e essa miopia são vÃcios que acossam as mulheres com mais facilidade - porque talvez os homens ainda sejam mais cobrados por ter farinha no saco, mesmo que seja pouca, mesmo que esteja um pouco empelotada.
Para os homens a farinha tem que estar lá. Eles não podem apelar com a mesma facilidade para uma crise de choro ou para a própria beleza fÃsica ou então suplicar paciência por pertencerem a um suposto sexo frágil de modo a resolver as suas paradas numa hora de aperto.
Esses dias, quando me dei conta, estava numa reunião com uma delas. Lindo ver como se desviava dos itens em aberto. A culpa jamais seria dela, pelo que quer que viesse a acontecer. E com que energia saÃa da aparente apatia para espernear quando algum daqueles itens aparentava se encaminhar para pouso em seu colo! E por mimetizar tão bem todos os vÃcios da empresa tão rápido (ela era novinha, estava recém começando), e por reproduzir tão bem as piores práticas de mercado sendo ainda tão jovem, eu soube que ela iria longe naquele ambiente, e faria uma longa carreira por ali. Não pelo que fizesse de bom e de diferente. Mas exatamente pelo que perpetrava de mal intencionado e de igual.
Fonte: Manual do Executivo Ingênuo, em Exame