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07/01/2011 - 07h53

O êxodo paulistano

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Por Adriano Silva

Tenho um amigo que tem olho de águia. Tenho mais de um, mas é deste que gostaria de falar hoje. Tem gente assim, né? Enxerga nas entrelinhas, enxerga antes, ali na frente.

Ou, pelo menos, enxerga algo que a gente ainda não viu e só vai ver (às vezes, não) depois. Esse meu amigo não é um cara trendy nem posudo com suas antenas afiadas. Mas tem uma inteligência fina para antecipar algumas tendências. E, sobretudo, algumas oportunidades. Ele consome bastante informação e a digere do seu modo próprio, que pode parecer meio desligado, ou caótico, mas que funciona muito bem para ele.


Meu primeiro contato com São Paulo se deu por meio dele. Isso já tem quase 20 anos, então para mim vale também como uma antecipação. Nos cruzamos profissionalmente naquele momento e nunca mais nos desligamos por completo - ainda que com alguns silêncios relativamente longos durante esse período.

Há dez anos, quase enveredamos juntos pela internet, numa época em que quem não tinha um business plan para cair de cabeça no mundo digital não merecia comer um prato de comida, não merecia beber um copo d’água.

Ele me chamou para a pista e depois me sugeriu dar um tempo no acostamento - a Nasdaq tinha acabado de quebrar, entre uma reunião e outra que tivemos com fundos de investimento dispostos a investir. Ah, a bolha. Nos livramos dela por semanas. Há males que vem para bem.


Meu amigo tem um jeito sempre delicado, gentil, quase amoroso de dizer as coisas. Foi ele que me disse que naquele momento estava entrando com os ovos e eu com o bacon, que naquela sociedade entre a galinha e o porco para produzir um café da manhã, eu devia, naquele momento, me preservar mais.

Ele é um tipo que faz força para ser ético e cortês - não quer levar nenhuma ficha suja desta vida. Anos mais tarde, me apresentou à maior oportunidade profissional da minha vida - ganhou com isso, é claro, mas me deu muito também. Não devemos nada um ao outro, quero crer. Mas diante de um cara assim só posso ser agradecido. E nutrir admiração por suas sacadas e pelo seu jeitão de viver.


O último movimento dele pode tranquilamente ser a antecipação de uma nova tendência: ele está considerando deixar São Paulo. Empresário, com uma boa vida estabelecida há décadas na capital paulista, ele está a dois minutos de decidir sair da cidade - e do país.

Seu argumento: São Paulo é caro demais. É uma cidade que demanda muito combustível e que roda pouco. É como pagar o preço de ter um motor de 500 cavalos e viver engarrafado - só para usar duas metáforas bem próximas da realidade dos paulistanos.

É assim: São Paulo tem demandado muito mais do que oferece em troca. Você precisa remar muito para ter coisas que teria com mais facilidade, com menos esforço, em outro lugar. Ao mesmo tempo, dentro do Brasil, numa perspectiva de vida urbana, não há outro lugar para viver e trabalhar depois que você passa um tempo consistente aqui.

A conta dele é bem pragmática, não tem nada de paixão, ódio ou decepção. Sei que ele curte tudo que São Paulo tem de bom, que adora a cidade, que é grato a ela, que reconhece tudo que ela oferece e tudo que ela lhe proporcionou.

Só que ele olha para a frente e não se enxerga vivendo aqui a segunda metade, ou o último terço, da sua vida. Não nesse ritmo, não com esse custo, não acompanhando a cidade para o lado e na velocidade em que ela ainda vai crescer.

Trata-se de uma equação simples de retorno sobre o investimento, de qualidade de vida, de expectativas pessoais mais apuradas e melhor compreendidas, de sensações que só a maturidade e o apogeu trazem para o sujeito, de poder trabalhar menos para ficar mais tempo com a filha e a mulher, daqui a pouco com os netos, num lugar mais seguro, com menos trânsito, com menos ruídos, com menos demandas e complexidades.


Quem não pensa nisso ao se aproximar dos 40, dos 50? Especialmente quando você viveria com metade dos dólares gastos aqui, tendo o mesmo padrão de vida, num lugar como Buenos Aires? Especialmente quando você gastaria dois terços do que gasta aqui para viver muito melhor num lugar como a Flórida ou o Canadá?

Fonte: Exame
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