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29/09/2010 - 09h35

Trabalhando muito, trabalhando demais

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Por Adriano Silva

Que é preciso dar duro, todo mundo sabe. No mundo corporativo, num número cada vez maior de empresas, isso decorre do ambiente competitivo. Não só da companhia em relação às suas concorrentes mas também do indivíduo em relação a outros talentos que disputam com ele os melhores lugares ao sol.

No mundo do empreendimento, onde me encontro hoje, por conta daquela milha extra, como dizem os americanos, que é preciso estar disposto a percorrer se você quiser que a sua empresa visceje. Mas tudo tem limite. Inclusive o volume de trabalho. Inclusive a disposição em fazer cada vez mais coisas. E é preciso conhecer esse limite. E respeitá-lo.

A gente tem gatilhos que avisam quando a coisa está ficando feia. Ansiedade, taquicardia, hiperventilação - quando a sua angústia, no caso do empreendedor, já não é a falta de demanda para os seus serviços, mas o excesso.

Quando, no caso do executivo, o problema não é o desemprego - mas a carga muar de trabalho. A angústia da venda dá lugar à angústia em relação a sua capacidade de entregar o que foi vendido.

Você sente um pouco a sua própria fuselagem se despregando do corpo do avião por causa da trepidação e da alta velocidade do voo que você mesmo se impôs.

Você fica com a sensação eterna e ininterrupta de dívida, de insuficiência, de um infinito correr atrás que nunca chega a bom termo e que nunca lhe permite descansar. Você perde o sono, perde o centro, e sente claramente que o carro está andando numa velocidade maior do que aquela para a qual ele foi projetado.

O duro, nesse caso, não é sentir. Os sintomas do abuso de trabalho a que você se impõe são claros. O duro é reagir corretamente a eles, é decidir parar, descansar, desacelerar. O duro é isso - se respeitar, ser bacana consigo mesmo, negociar melhor com o mundo ao invés de simplesmente se adaptar cegamente às demandas externas.

Primeiro, pela sanha do "macho empreendedor" - ouvi essa expressão ontem de um bom amigo, dono de uma das maiores agências de propaganda do país, com o qual sempre aprendo alguma coisa sempre que nos encontramos.

O empreendedor tem uma fase, na juventude da sua carreira de empresário e de fazedor de coisas, segundo meu amigo, em que quer fazer filho com todo mundo, quer espalhar seu genoma por todo lugar, como um macho alfa do mundo dos negócios em completo desvairio reprodutivo.

Caras assim, vivendo essa fase, como é o meu caso, teriam muita dificuldade em dizer não. Declinar oportunidades, segundo meu amigo, seria uma questão de maturidade. Essa sanha de fazer, fazer, fazer, quero crer, vale quase na mesma medida para os executivos. O problema em relação a tudo isso é que criar, gerar, conquistar, ganhar dinheiro, vicia. E esse vício tem nome: workaholismo.

No meu caso, tento traçar algumas regras que me ajudam a coibir o abuso de mim por mim mesmo: (1) não trabalhar fim de semana. Folgas são para a família e para mim mesmo. (2) Não levar o notebook para a cama, não trabalhar à noite, não invadir o horário de descanso. O dia tem que caber dentro do dia. (3) Retornar ao ponto de equilíbrio, de distensão necessária, de respiração normal e de cabeça limpa e fria sempre que me despegar desse caminho do meio, dessa velocidade controlada que nos permite viver a vida com sabedoria.

Fonte: Manual do Executivo Ingênuo, do Portal Exame
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