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08/12/2009 - 08h28

As três cartas e a mudança

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A empresa vinha apresentando uma solidez econômica invejável. Conseguira uma posição privilegiada no mercado e, como consequência, os lucros obtidos faziam dele um líder respeitado perante todos os stakeholders. E este era, sem dúvida, mérito seu.

Empenhara-se profundamente em suas funções implantando um modelo de gestão no qual se dava pleno incentivo à efetiva participação dos colaboradores, seja na escolha como no manuseio das diversas ferramentas que viessem a contribuir para o sucesso da instituição.


Apesar dos bons resultados obtidos pela empresa que a colocava como sinônimo de força e poder frente a seus concorrentes próximos, Francisco ou o seu Chico como o chamavam cariosamente seus colaboradores, foi convocado para uma reunião junto ao conselho da organização e comunicado que a empresa já não precisava mais de seu trabalho.


Para muitos este comunicado poderia significar o fim, mas, para o velho Chico acostumado aos caprichos da vida não.
Acatou a decisão da empresa com tranquilidade. Retornou para seu escritório juntou seus objetos particulares e colocou em uma caixa.

Antes de sair pegou um bloco de papel e escreveu três cartas, depois as colocou em um envelope tomando o cuidado de enumerar cada um dos envelopes com a carta número um, dois e três.
Depois colocou as cartas na primeira gaveta com uma pequena instrução para o próximo gestor que iria assumir o seu lugar.

Passaram-se alguns dias o novo gestor assumiu seu posto e abrindo a primeira gaveta se deparou com as três cartas e com a instrução.
Curioso começou a ler as instruções que diziam:

"Estas três cartas foram deixadas por mim, seu antecessor. Faço votos que os conselhos nelas contidos possam ser-lhes úteis.


- A primeira carta: Quando você se deparar com a primeira grande crise e no momento que estiver em dúvida do que fazer abra-a e nela você encontrará uma instrução de como proceder.

- A segunda carta: abra-a na segunda crise.

- A terceira carta: abra-a na terceira crise.

Observação: só abra as cartas quando julgar que realmente está com um problema muito sério.


O tempo passou e finalmente veio a primeira crise.
A empresa estava com sérios problemas para honrar seus compromissos e havia uma enxurrada de fornecedores inconformados por não receber seus pagamentos devidos. O jovem gestor lembrou-se das cartas do velho Chico.

Retornou a sua sala, fechou a porta, abriu a gaveta e retirou o primeiro envelope.
Abriu-o com cuidado retirando um pequeno papel que estava dentro.

Estava escrito: "Critique a gestão anterior".


O jovem gestor sorriu e retornou à sala de reuniões onde se encontravam os credores e seguindo o conselho do velho mestre colocou toda a culpa da situação em seu antecessor.
Conseguiu acalmá-los e assim retornou a sua rotina.

Após três anos de calmaria eis que se viu diante de nova crise.
Desta vez eram os colaboradores que se mostravam descontentes com a forma de tratamento a que estavam sendo submetidos. O jovem gestor abriu diálogo com o grupo, mas, apesar de todos os seus argumentos os ânimos não se serenaram.

Era hora de abrir o segundo envelope.


Foi a seu escritório e após fechar a porta tomou o segundo envelope e abriu. Nele estava escrito:


"Mude o organograma".


O jovem gestor seguiu a risca o conselho e começou a fazer mudanças.
Logo percebeu que o foco mudou. Agora todos estavam interessados em não perder suas posições no organograma e as reclamações desapareceram.

Muitos anos se passaram e o jovem gestor agora já não era tão jovem.

Apesar dos anos da rotina e dos anos de experiência, não conseguia encontrar soluções para a terceira crise.
Chegara o momento de abrir a terceira carta.

Com cuidado tomou o envelope nas mãos e abriu.
Nele estava escrito:

"Escreva três cartas iguais a estas, junte suas coisas e vá embora".

É muito comum uma nova gestão, para se eximir da responsabilidade de não atender aos anseios dos stakeholders de uma organização ter como justificativa a gestão anterior.


Por outro lado, ao assumir uma empresa é normal que o novo gestor procure se cercar de pessoas de sua confiança, o que não é normal é mudar constantemente o organograma, tirando e colocando pessoas como se fossem objetos simplesmente para abafar problemas que não consegue resolver, sem um planejamento prévio e sem qualquer critério técnico.


Esta é uma prática que, se não é comum, acontece em muitas empresas.


Autor: Rubens Fava
Fonte: Administradores
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